domingo, maio 06, 2012

Variações do acaso

Pedro Süssekind trabalha a relação entre forma e conteúdo em romance de múltiplos níveis narrativos


Pedro Süssekind, autor de Triz
Triz, primeiro romance de Pedro Süssekind, propõe logo de saída uma importante premissa, que pode ser fundamental enquanto chave de compreensão de sua obra: a de que “a vida só faz sentido durante as horas de jogo”.
Com efeito, o protagonista-narrador, Murilo Zaitsev Albuquerque, num primeiro momento, faz-nos saber que é um viciado em corrida de cavalos. Mas não se trata apenas de mais um caso de jogador compulsivo que, ao fim e ao cabo, acabará falindo, tanto material quanto moralmente, como muitos personagens literários obcecados por jogatinas. Nesse sentido, aliás, é o próprio narrador que nos remete a outros grandes romancistas russos que tratam da temática do jogo, instaurando, assim, de modo explícito, como um de seus procedimentos narrativos, o diálogo intertextual que com eles estabelece, como ocorre com Dostoiévski (O jogador) e Gustav Traub (A aposta). Indo além destes, poderíamos citar também os mais modernos Verão em Baden-Baden (1981), de Leonid Tsípkin, ou ainda outro, de matriz freudiana, Aurora (1926), do austríaco Arthur Schnitzler, em que o primeiro-tenente Wilhem, devido às suas pulsões obsessivas, perde-se completamente diante da impossibilidade de saldar uma absurda dívida de jogo. Recorrentes a todas essas obras, o desespero fatal dos que se endividam por conta do vício.
O que, no fundo, distingue Murilo de tantos outros anti-heróis jogadores, representantes do fracasso e da derrocada, advindos da ilusão dos ganhos desse flertar com a própria sorte, é que ele reflete sobre o ato de jogar como indissociável do ato de viver, acredita mais no acaso e na intuição do que nas estratégias articuladas para a almejada vitória e confessa:
Já eu, que só enxergo nas corridas as imprevisíveis variações do acaso, até ouço as constantes e variáveis das análises estatísticas, acredito nelas, mas no caminho para o guichê de apostas sempre sou assaltado por alguma intuição definitiva e aparentemente infalível. Os números e os nomes se combinam, tomando forma, e finalmente escolho seguir aquela intuição em vez da estatística. Mesmo assim, é preciso admitir meu fracasso na tentativa de imitar Aleksiéi Ivânovitch, de Um jogador, ou de Nikolai Kolotov, de A aposta, afinal meu sangue russo talvez seja muito diluído para gestos dramáticos, dívidas acumuladas, derrocadas e riscos exagerados. Gasto um pouco, ponho na conta do divertimento; a alegria de um ou outro acerto, se não paga as perdas, compensa com sobra as apostas erradas…
Se é verdade, então, que Süssekind rende homenagem aos russos (uma vez que o protagonista, neto de russo, é estudioso e amante da literatura russa, além de seu tradutor), especialmente às obras que têm o jogo como assunto dominante, é também verdade que,  numa proposta abrangente e filosófica, busca investir na leveza do acaso e em suas múltiplas variações, em que o que importa é apostar, mais do que ganhar ou perder. Daí por que, seja nas questões concernentes às corridas no Jóquei do Rio de Janeiro, seja no que diz respeito a seus relacionamentos amorosos, ou mesmo nas escolhas tradutórias que precisa fazer, Murilo encarna, de certa forma, o que Schiller postulara em Sobre a educação estética a respeito do impulso lúdico como elemento necessário ao ato criativo. Tais idéias de Schiller fundamentadas em Kant, em síntese, revelam que “é no estado lúdico, ‘desinteressado’ ou ‘desinteresseiro’ (isto é, sem interesse na existência material do objeto) que o homem supera as dilacerações da vida interessada”. Seguindo essa linha de raciocínio, percebemos que um dos aspectos mais interessantes do livro de Süssekind reside exatamente no fato de apostar no discurso eminentemente estético, já que como anunciamos anteriormente “a vida só faz sentido durante as horas de jogo”. Se a vida é jogo e a natureza lúdica é intrínseca ao humano (Huizinga — Homo ludens), o homem deve jogar com a beleza e fruir o que o ato de apostar traz em si, enquanto fuga possível das dilacerações da realidade.
É esse traço lúdico que perpassa todo o romance, para além do vício, que, no caso, não faz do protagonista um perdedor aniquilado, mas alguém que vai aprendendo a jogar com as cartas que a vida lhe apresenta.
Viciado em tradução
Outro jogo em que o narrador também se vicia é o da tradução. De fato, mais do que ser o profissional a quem cabe a tarefa de traduzir a obra A aposta, de Gustav Traub, em que o médico russo Nikolai Kolotov será vítima das armadilhas do carteado, Murilo se deixa contaminar por ela, dando indícios de que, assumindo as funções de seu metiê, revela-se bem mais do que co-autor do texto que se propõe a verter para o português. É como se passasse a vivenciá-lo em sua própria história pessoal.
Nesse nível do desenrolar da narrativa, cabe toda uma discussão sobre o papel do tradutor e os limites e alcances de seu trabalho. Calvino já asseverara que “Tradurre è il vero modo di leggere un testo” (“Traduzir é o verdadeiro modo de ler um texto”), mas Süssekind parece radicalizar essa máxima, já que o protagonista de Triz está tão impregnado do que traduz que talvez se pudesse afirmar que para ele “traduzir é o verdadeiro modo de viver um texto”. Com efeito, é tão decisiva a influência da obra de Traub no espírito do narrador que a composição do romance, várias vezes, se utiliza do recurso da apropriação de trechos inteiros da obra daquele escritor. Se pensarmos no tradutor como um leitor exímio e extremamente habilitado, no limite, o que aqui se apresenta é a instigante questão dos efeitos do texto no espírito de quem o lê (a propósito, vale mencionar o interessante estudo de Stefano Calabrese, Wertherfieber, bovarismo e outras patologias de leitura romanesca).
Importa notar o quanto esse tipo de procedimento enriquece o romance como um todo, porque, por meio do jogo tradutório, Süssekind aponta a outro grande achado da literatura contemporânea, qual seja o das projeções especulares.
Projeções
Não é à toa que o primeiro capítulo da obra nos apresente Murilo apostando na corrida de cavalos no Jóquei Clube do Rio de Janeiro e o segundo nos desloque radicalmente, remetendo-nos, de chofre, a um dos trechos do romance A aposta, em que o perfil de Nikolai Kolotov vai se desenhando, no inverno rigoroso de Paris, onde o médico russo teria sido exilado. Para alinhavar a dinâmica fragmentária pré-anunciada (em que dois personagens, aparentemente dissociados e distantes, apresentam histórias diversas no mesmo corpo narrativo), o autor lança mão do expediente tradutório.
A tradução, nesse sentido, é um eixo de força que opera em dois níveis. O primeiro, mais evidente é o intra-ficcional, num viés metaliterário (já que Murilo é tradutor literário de Traub):
Kolotov cumprimenta o anfitrião, dizendo-lhe que é uma honra jogar numa mesa com banca tão ilustre. Então Fouquet o saúda amavelmente e indica o lugar vago bem ao lado daquele cavalheiro de grandes olhos negros (olhos vulpinos, segundo a definição de Traub que me levou a consultar o dicionário) dirigidos fixamente para as fichas vermelhas que equilibra em seus dedos finos, como se as examinasse.
O segundo nível é o que se estabelece para fora do âmbito estrito do romance, em que a tradução serviria de ponte de intermediação entre o narrador e o leitor (como se o narrador também precisasse “traduzir” — no sentido de “fazer o receptor entender” a história de Traub) que, se assim não fosse, ficaria sem saber que Murilo e Kolotov são protagonistas de romances distintos, que se tocam e se refletem especularmente.
Em outras palavras, só depois de termos sido apresentados a Murilo e em seguida a Kolotov é que ficamos sabendo que o primeiro é o tradutor do segundo e que se deixa contaminar tanto pelas atribulações e intrigas do médico, viciado em “faraó” (espécie de jogo de cartas comum à época — fins do século 19, início do 20, na Rússia), que, a todo momento, evoca os parágrafos e situações que traduz do romance para a sua própria experiência, projetando-se neles (como num jogo de espelhos, em que um revela o outro e vice-versa).
De certa forma, os níveis tradutórios se abrem aos níveis projecionais: Traub está para Süssekind, assim como Kolotov para Murilo.
Virando o jogo
Ainda que o romance ganhe força por meio desse universo de equivalências e correspondências, o que acaba lhe conferindo um tom maior é exatamente o de apostar nas idiossincrasias de cada um dos respectivos jogadores.
Por mais que possa ser uma obra de amor à Literatura Russa e aos autores que a dignificaram, por mais que Triz possa ser lido como homenagem ao grande e ainda pouco conhecido Gustav Traub (segundo o narrador, “o maior escritor russo depois de Púchkin”) e ainda que haja uma série de aproximações entre Murilo e Kolotov, talvez o grande lance de Süssekind tenha sido o de, ao final, virar o jogo, ponderando:
É exatamente o fato de ter ganhado que leva Kolotov à ruína, pensei ao passar pelas calçadas quase alagadas, na rua do Catete. Sabia o que estava para acontecer: da próxima vez que ele encontrasse Iáchvin, já seria para cair na sua armadilha. Restava da minha primeira leitura do romance, feita anos antes de começar a traduzi-lo, uma impressão angustiante dessa parte do livro, suscitada pela maneira seca como Traub descreve a derrocada do protagonista. Não há uma preparação, um processo gradual, ele simplesmente continua a apostar indefinidamente, e quando não tem mais recursos, recorre a Iáchvin como se isso fosse natural, sem se preocupar. Daquele ponto em diante, parece não haver escapatória.
Murilo, diversamente de Kolotov, mesmo perdendo, tem a escapatória dos que apostam na vida e só querem fruir o prazer estético do jogo, que pode ser também o de narrar, já que como diz analogamente a canção, ele segue, “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas sempre aprendendo a jogar”…

O literato da memória

Autor bissexto, memorialista singular, ourives da narrativa: Pedro Nava tem seu lugar reservado na história da literatura brasileira como muitos em um só.

Pesquisa recente sobre o índice de leitura do Brasil dá conta de um cenário bastante sombrio para um país que se imagina numa espiral incontestável do sucesso, certamente alavancado pelo lance de dados da economia mundial, que, malgrado o fato de não se recuperar nos países centrais, nas nações em desenvolvimento (ao menos por enquanto) tem prometido um futuro brilhante de desenvolvimento socioeconômico. Todavia, o Brasil não conhece o Brasil. E prova maior disso, para retomar a pesquisa citada acima, é a constatação de que este é um país que não lê. Ou, na melhor das hipóteses, lê pouco e lê mal. Tudo isso a despeito de as editoras comemorarem as listas dos mais vendidos; de os escritores se refestelarem nos prêmios e nas festas literárias; não obstante as oficinas de escritores e os cursos de letras que abundam nas casas de cultura e adjacências.
Ainda assim, o Brasil foi o berço de Pedro Nava.
De forma semelhante, este mesmo Brasil é acusado, dia sim e outro também, de não ter memória. Talvez sejam os casos de corrupção, que tornam toda crônica política mais absurda que qualquer realismo mágico. Ou, ainda, talvez seja culpa de certa visão cínica que marca os formadores de opinião, estes que, penas de aluguel, a todo momento decidem reescrever as interpretações e buscar um novo efeito de sentido para a história recente do país. O Brasil não conhece o Brasil, vale a pena reiterar. O Brasil se esquece do Brasil, é justo postular. Portanto, a acusação, legítima e corriqueira, exige algum tipo de reparação. A resposta, todavia, não poderia ser mais simbólica. Em vez de reação efetiva à idéia da perda do registro histórico-cultural do país, nota-se um estado de inanição por parte dos intelectuais, que refletem cada vez mais para seus pares e seus projetos particulares.
Todavia, foi nesse mesmo ambiente, quiçá ainda mais precário, que surgiu Pedro Nava.
Dono de um dos textos mais elaborados da prosa brasileira, Pedro Nava, com efeito, permanece como um autor sui generis na literatura brasileira. Em verdade, em um desses estudos acadêmicos alguém já deve ter especulado o fato de que, em Minas Gerais, a literatura brasileira parece viver um tempo diferenciado. Porque é nessa região que alguns dos principais prosadores do país, de Cyro dos Anjos a Guimarães Rosa, passando por Otto Lara Resende e Luiz Vilela, se desenvolveram como expoentes do texto literário. Dito de outra maneira, alguém ainda há de averiguar (se já não o fez) qual é o segredo das Gerais, terra que legou à nação grandes autores, como Carlos Drummond de Andrade, cujo centenário se comemora agora em 2012.
E é de Drummond o prefácio que abre o Baú de ossos, livro que a Companhia das Letras acaba de relançar junto a Balão cativo, respectivamente primeiro e segundo volumes da coleção que reúne o memorial de Pedro Nava. No texto de abertura do livro, o autor de Alguma poesia recorre à imagem mais tradicional para descrever a personalidade literária de Nava: trata-se de um bissexto. Verdade que Drummond menciona a característica em outra seara das artes, a pintura, mas é correto assinalar que, também na prosa, Pedro Nava foi considerado um autor bissexto, isto é, alguém que insistia em publicar de tempos em tempos, respeitando, talvez, um determinado espaço para a absorção de suas obras, como que estabelecendo um acabamento formal aos textos, de maneira a transformá-los na mais perfeita representação de seu projeto literário. Sobre isso, vale mais uma vez recorrer à imagem que Drummond propõe acerca de Nava: “a minúcia descritiva e a arguta propriedade vocabular são recursos para identificar, através de cada pormenor, o sentido específico da coisa, a ‘alma do negócio’”. Temos aí, em poucas palavras, o efeito produzido pela literatura de Nava. Em poucas palavras, a bela composição entre forma e conteúdo.
Com efeito, a despeito dos fartos elogios que os medalhões da literatura brasileira dispensam a Pedro Nava, é comum assinalar que o valor da obra desse escritor reside na qualidade textual do autor, algo que, como sabe quem já frequentou um curso de letras, está absolutamente ultrapassado — esse tipo de texto cedeu espaço para a lingüística aplicada e para as disciplinas de leitura e compreensão de textos. Em que pese a acuidade dessa avaliação acerca do estilo Nava, cumpre observar que esses dois campos — forma e conteúdo — não estão distantes na obra do escritor mineiro. Em verdade, é bem possível assinalar que a forma concede ao texto de Nava uma naturalidade e uma leveza para um tema assaz complexo, que é, na verdade, uma interpretação sobre o Brasil. Suas memórias, nesse sentido, servem como um modelo de invenção literária conjugada com o encadeamento da memória, de tal maneira que ambos os pontos funcionam em continuidade.
Um indício pode ser visto já no primeiro capítulo de Baú de ossos, livro que, não por acaso, começa com um traço inconfundível da mineiridade: “Eu sou um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”. Ou seja, de um lado, a aparente modéstia da parte a da frase (“eu sou um pobre homem”); de outro, a menção à terra que serve de referência para a sua narrativa: (“do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”). Que não haja equívoco aqui: o ser mineiro aqui está na afirmação que, em tese, não possui qualquer gravidade ou afirmação de espírito. Ainda assim, basta olhar a referência acima e lá está a alusão a Eça de Queirós. Ou, dito de outra forma, já no cartão de visitas, eis um autor que conhece, inclusive, a correspondência do escritor português.
Em seguida, ainda no mesmo capítulo, o leitor tem à sua disposição todo um repertório de imagens, cenas, relatos e referências envolvidas numa linguagem fluida, como também ressaltou o “poeta federal”. Chama a atenção, aqui, a capacidade de Nava de dar continuidade ao texto como se fosse uma longa conversa. É possível afirmar, aliás, que, como poucos escritores, em Pedro Nava o termo prosa não é apenas a designação de uma forma. É, também, a maneira como seu texto flui, numa longa conversa com o leitor. Alguém poderá afirmar que também os (bons) cronistas de jornal contam com esse mérito, de maneira que anunciar esse detalhe como virtude é banal. O argumento seria correto e preciso, não fosse pelo fato de que o memorialista não fica circunscrito à narrativa do cotidiano, por mais banal que suas histórias soem ao ouvido do leitor. Trata-se, antes, de uma composição complexa, uma vez que lida não com as informações da semana, mas com os acontecimentos de uma vida. Foi, a propósito, a filósofa alemã Hannah Arendt quem certa feita escreveu acerca da diferença entre cultura e entretenimento: “a cultura relaciona-se com objetos e é um fenômeno do mundo; o entretenimento relaciona-se com as pessoas e é um fenômeno da vida”. Assim, regida por uma “ordem de mundo” que é a da sociedade do espetáculo, a prosa dos cronistas da imprensa nacional se refestela no espetáculo do entretenimento, conversando sobre pessoas, celebridades, costumes — sem mencionar as falsas polêmicas dos suplementos culturais. De sua parte, a escrita de Nava se posiciona na plenitude do universo da cultura.
Cronista do Brasil
Se a crônica como gênero literário parece ter sido efetivamente tomada de assalto pelos próceres do jornalismo, a ponto de mesmo os teóricos da comunicação e os professores de literatura na desafiadora missão de formar leitores seqüestrarem o gênero, concedendo apenas uma definição possível a esse texto — a saber: um híbrido entre jornalismo e literatura, tomando emprestado desta o estilo e daquele o assunto —, é melhor não pensar nessa definição estanque ao ler Pedro Nava. Isso porque chamá-lo de cronista, neste caso, é diminuir por demais seu empreendimento estético, haja vista que não é o autor que tenta se moldar aos temas abordados, como que deformando o estilo para comportar a forma. O processo é exatamente inverso. É o tema que se transforma sob sua carpintaria literária, pois, com sua prosa fluida e sofisticada, o escritor envolve o leitor num universo íntimo e pessoal, desses que são capazes de alienar a audiência do mundo sensível que o cerca.
Assim acontece, em Baú de ossos, ao discorrer sobre sua genealogia, deslocando-se do tempo presente para o século 18, enumerando toda sorte de referências materiais e imateriais possíveis. Nota-se, nesse quesito, que Pedro Nava não se deixa levar por uma espécie de método ou mesmo “recorte” de observação; antes, procura narrar suas memórias com tamanha argúcia que seria mesmo possível dizer que ele as (re)inventa como gênero literário. A questão da carpintaria, já mencionada no parágrafo acima, é essencial para tal impressão. Nesse primeiro livro de memórias, Nava consegue estabelecer um novo estatuto para o gênero, graças, em boa parte, ao fato de que o tecido de seu texto remonta à composição de um romance. Exemplo gritante dessa aproximação pode ser percebido ao expor suas idéias sobre a relevância das genealogias:
Não é possível vender um cavalo de corridas ou um cachorro de raça sem suas genealogias autenticadas. Por que é que havemos de nos passar, uns aos outros, sem avós, sem ascendentes, sem comprovantes? Ao menos pelas razões de zootecnia devemos nos conhecer, quando nada para saber onde casar, como anular e diluir defeitos na descendência ou acrescentá-la com qualidades e virtudes. Estuda-se assim genealogia, procurando as razões de valores físicos e de categorias morais. (…) Além de ser com a finalidade de conhecer o valor-saúde das famílias e, por extensão, o valor saúde-nacional, há outros motivos que levam aos estudos genealógicos. Herança. Aparecimento de tesouros. Está no último caso essa complicada história da herança do barão de Cocais que revoluciona periodicamente a família Pinto Coelho e leva milhares de seus membros a reverem os tombos de igrejas, bispados, cartórios, a papelada do Arquivo Público Mineiro (…).
Se no primeiro livro a preocupação com a dicotomia genealogia/herança é evidente ao longo do texto, em Balão cativo, a segunda obra das memórias, nota-se a presença destacada do escritor francês Marcel Proust — detalhe perceptível já na epígrafe do livro na presente edição da Companhia das Letras. Além do autor de Em busca do tempo perdido, há ainda Machado de Assis, cuja afinidade eletiva é perceptível também no quesito estilo. Na apresentação, André Botelho escreve, novamente ecoando Proust, acerca da idéia de recuperação do tempo perdido. Com efeito, em Nava, o tempo não apenas é reencontrado, mas também organizado num vasto mundo de referências e de repertório cultural, que vai do escritor La Fontaine ao pintor Jean-Baptiste Debret, passando pelos autores Carlos Drummond de Andrade, Humberto de Campos e Ernest Hemingway.
Assim, para além da questão do estilo, é curioso observar que Botelho empresta um tom sociológico na análise da prosa de Pedro Nava. Dessa forma, é como se o autor reconstruísse os episódios de sua infância e de sua formação como um retrato falado da época, registrando as filigranas das relações sociais de um Brasil demasiadamente marcado pelo patriarcalismo, remontando, portanto, a alguma rigidez nas relações sociais de um Brasil perdido entre o passado e o presente. Em outras palavras, nas histórias que compõem os anos de sua formação, vemos, em paralelo, as marcas determinantes desse espaço sócio-político do país, sobretudo nas suas estruturas mais simbólicas, como fica evidente na exposição dos quadros das relações familiares, ora em Juiz de Fora, ora no Rio de Janeiro.

"Nas histórias que compõem os anos de sua formação, vemos, em paralelo, as marcas determinantes desse espaço sócio-político do país."

Erudição
Em que pese a relevância acadêmica apresentada por André Botelho, o texto de Nava conquista seu próprio espaço sem a necessidade de paratextos. É o próprio Nava quem estabelece uma (alta) literatura, recorrendo à sua memória e a uma análise para lá de original para poder dissertar sobre os temas que ora surgem na sua prosa. Pois é assim, por exemplo, que o leitor tem acesso às referências de Nava quando este escreve sobre a questão da sexualidade oriunda de nossa tradição judaico-cristã. Tomando como base uma leitura bastante peculiar da criação do mundo, Nava atenta para o fato de que, em poucos dias, já “estavam criados os símbolos essenciais e o espírito de Freud rolou sobre a face da Terra”. Em seguida, quem imagina uma exortação fundamentada em textos sagrados é surpreendido com uma longa demonstração de conhecimento sobre esse tema transversal da literatura, como se observa no fragmento a seguir:
Eles desceram pelas idades com sua sinuosa espada de fogo (saberão eles? Que brandem um símbolo!) querendo expurgar a própria Bíblia, o obsceno Homero, o torpe Virgílio, o escabroso Dante, o sacanão do Camões, o safardana do Cervantes, o licencioso Rousseau, o inconveniente Balzac e, recentemente, toda a fauna representada por France, Maupassant, Gide, Dreiser, Proust, Apollinaire, Joyce, Lawrence, Cocteau, Hemingway, Radiguet — em suma, todos que usam o que se convencionou chamar pensamento ou linguagem não protocolar.
Autor bissexto, memorialista singular, ourives da narrativa: Pedro Nava tem seu lugar reservado na história da literatura brasileira como muitos em um só. Ainda assim, o que o torna realmente sui generis é sua imaginação como autor. E isso se deve à sua erudição refinada. Tal preparo intelectual está associado à formação de Nava, que, para além de médico, foi um grande leitor. Foi a partir dessa condição que ele soube estabelecer um registro biográfico sobre a sua trajetória e sobre o país que não conhece a si mesmo.

Lúdico e mágico

Nas crônicas de A perfeição não existe, Tostão apesenta reflexões e idéias para além dos campos de futebol


Tostão, autor de A perfeição não existe
Parece que estamos diante de um livro extremamente importante sob diversos pontos de vista: repensa o futebol contemporâneo e, ao fazê-lo, elabora uma leitura do imaginário e da escrita contemporâneos. O futebol brasileiro foi e é capaz de produzir um dos mais potentes e — por isso mesmo — problemáticos espelhamentos desta sociedade. Neste livro, lê-se uma afirmação da potência do futebol por meio da resistência aos discursos hegemônicos — sobretudo entre torcedores, técnicos e jornalistas — que não fazem jus aos fundamentos lúdicos e mágicos do esporte. Ao lidar com os restos de uma marca brasileira no futebol mundial — representada da maneira mais completa pela seleção da Copa de 1970 —, este livro encontra-se, no limite, emaranhado nas questões da literatura contemporânea, que lida sobretudo com os arquivos da modernidade.
Em busca da beleza
A escrita de Tostão conquistou um espaço de singular relevância no ensaísmo brasileiro. Publicadas semanalmente em jornais de inúmeros estados do país, suas crônicas atravessaram a primeira década deste século dando algo mais do que o testemunho de um craque da Copa de 1970 que, posteriormente, se tornou médico, professor de Medicina e estudioso em Psicanálise. Para se trabalhar bem um gênero que exige rápida comunicação, um gênero típico do jornalismo e marginal à tradição do livro, é necessário fazer ver a espessura do cotidiano — no caso, do dia-a-dia do futebol. Em Tostão, essa espessura encontra-se na crítica à linguagem com que se fala de futebol. Por isso suas crônicas são sempre propositivas, nunca impositivas. (Quando se impõe, não se questiona a linguagem utilizada.)
Mais do que propor como assistir ou jogar futebol, os textos de A perfeição não existe restituem o esporte como um lugar da cultura em que se definem valores necessários à vida, como na crônica em que interpreta o passe de bola: “Assim como o gol confirma a eficiência de um time, e o drible simboliza a individualidade e a improvisação, o passe representa o futebol coletivo, a solidariedade, a organização e a união de uma equipe”. Estes valores, que são imanentes ao esporte, podem ser encontrados com a mesma intensidade na arte, e é por isso que são inúmeros os poetas, prosadores, artistas em geral mencionados por Tostão para pensar o futebol.
Na mesma crônica, intitulada O passe, o escritor, após definir o passe de curva, reivindica a fala e a obra de um artista para dar a medida estética de um recurso do esporte:
O passe de curva, com a parte superior e interna do pé ou com os dedos laterais (três dedos, de rosca, trivela), é um ótimo recurso técnico para fazer a bola contornar o corpo do adversário e chegar ao companheiro que está atrás do marcador. É um passe bonito e inventivo. “A linha reta não sonha” (Oscar Niemeyer).
A beleza da maioria das análises de Tostão está em reivindicar o sonho e a utopia no futebol com base em recursos técnicos e táticos objetivos (como o passe em curva ou a tática de equipe aliada ao improviso individual), fugindo tanto ao tatibitate tecnicista dos técnicos quanto à mistificação emocional dos torcedores. Não se trata exatamente de ver o futebol com outros olhos, e sim de despir-se de saberes pouco úteis para se compreender uma partida de futebol como manifestação autônoma da cultura humana — e não do mercado de jogadores, da violência urbana, da corrupção política, da alienação social, etc. Também não se trata exatamente de defender o futebol-arte, pois o que se defende, antes de tudo, são as condições de possibilidade para que o futebol aconteça, quer dizer, para que um drible, em vez de ofender o adversário, expresse a beleza de uma disputa esportiva.
Força humanizadora
As crônicas de Tostão, ao posicionar o futebol no campo do sonho, da curva, da arte, numa linguagem simples e de rápida comunicação, realizam a força deste gênero literário tal qual preconizada pelo crítico Antonio Candido. No ensaio que dedicou ao gênero, A vida ao rés do chão, Candido define de maneira dialética a crônica como aquele texto cuja linguagem simples “fala de perto ao nosso modo de ser mais natural” e, ao mesmo tempo, como “compensação sorrateira”, recupera “certa profundidade de significado e certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição”. A presença desta ambigüidade entre linguagem simples e significado profundo parece constituir, para a crônica, a prova do livro. No caso do de Tostão, o título estabelece um diálogo insuspeito com o crítico: A perfeição não existe.
A reunião em livro de crônicas escritas durante pouco mais de uma década deixam muito evidentes as repetições de idéias do autor. Por exemplo, são inúmeras as crônicas em que fala do ex-companheiro Pelé, defendendo que uma das principais qualidades do jogador estava na visão de 360 graus que tinha das jogadas a serem realizadas pela equipe. Tais repetições, embora deixem à mostra o caráter circunstancial com que os textos foram escritos, fazem lembrar o caráter de ritual do futebol. Isso porque as partidas de futebol funcionam como ritos de passagem da semana para o brasileiro. Afinal, segunda-feira é o dia de se ter na ponta da língua o discurso jocoso dirigido aos torcedores do time adversário. Por isso a crônica é o gênero que mais tem se repetido para se falar de futebol, pois ela também constitui um ritual de escrita com dia certo para se fazer e quantidade certa de caracteres a atender.
Apesar disso, o livro que reúne as crônicas de Tostão pode ser considerado um ensaio dedicado ao futebol brasileiro contemporâneo. As análises de Tostão transitam entre variados campos do saber, podendo ser consideradas interdisciplinares. O autor chega a apresentar resultados de pesquisas científicas para elaborar seus argumentos, sem utilizá-los como argumento de autoridade. Ao mencionar um livro de psicologia esportiva que procurava analisar o peso dos aspectos psicológicos em relação aos aspectos técnicos em atletas profissionais, Tostão se apropria do resultado, sem no entanto aderir totalmente ao ponto de vista da pesquisa: “Os dois especialistas disseram ainda que, em competição de alto nível, 70% das decisões são definidas pelos fatores psicológicos. Exageros à parte, é indiscutível sua importância”.
Outro aspecto que aproxima A perfeição não existe do gênero ensaístico é a mescla de estilos de que se compõem os textos. Além das análises de jogos, jogadores, técnicos, confederações e campeonatos, as crônicas de Tostão compõem-se muitas vezes de suas memórias — algumas não relacionadas diretamente com sua atividade de jogador de futebol — e de pequenas narrativas ficcionais, como naquelas em que imagina o drama psicológico de técnicos de futebol como Luxemburgo e Felipão. Uma das crônicas narra a noite de Natal de João, um menino pobre que sonha em ser craque de futebol. Sem poder entrar numa escolinha de futebol do bairro (pois a família não tinha condições de pagar a mensalidade), o menino passa a noite de 25 de dezembro sonhando com o dia em que se torna um craque. “João acordou e, ao lado da cama, viu uma bola de presente. Era de couro, novinha, igual à do sonho. Seus olhos brilharam. Era feliz e sabia.”
Através de uma narrativa como essa, baseada num lugar-comum da cultura brasileira, o autor relaciona uma imensa memória social a sua defesa do futebol como sonho, ou, mais precisamente, como espaço de definição dos valores da vida. Em Conto de Natal e de futebol, uma bola, brinquedo que dispensa manual de instruções, dribla a pobreza da família e restitui, para o menino, a possibilidade de buscar o sonho. A bola humaniza.
A voz de Tostão transforma a seleção brasileira de 1970 em um ponto de vista do futebol. Esta seleção é o objeto de reflexão da crônica homônima ao livro: é “fascinante”, mas não perfeita. O encontro entre jogadores altamente técnicos e habilidosos não produziu uma seleção perfeita, mas encerrou um ciclo de afirmação mundial do futebol brasileiro que havia se iniciado em 1950 e que enredou o futebol na cultura brasileira. Pelé, protagonista deste ciclo histórico, é uma referência para a própria escrita de Tostão ou, antes, para a própria escrita da crônica: “Quando joguei ao lado de Pelé, percebi que uma de suas principais qualidades era tornar simples o que era complexo. Tudo se iluminava à sua frente”. Na mesma crônica, Pelé é comparado com Freud: “Quando entrei no curso de psicanálise, imaginei que jamais entenderia as idéias de Freud. Logo percebi que seus textos eram tão claros, convincentes e simples que até os mistérios da alma tinham lógica. Freud colocou ordem no caos”.

Tostão por Osvalter
Estilo em campo
Essa simplicidade como prova de evidência dos argumentos é conquistada pelo estilo de Tostão. Predominam no seu texto as relações de coordenação entre as orações, há muitos “isso e aquilo” e, sobretudo, muitos pontos finais. “Temos virtudes e defeitos. Somos humanos. Ambivalentes e pecadores. Uns mais, outros menos.” Assim como a interdisciplinaridade estabelece relações entre um campo de conhecimento e outro, o predomínio desse estilo coordenativo (tecnicamente denominado parataxe) mantém a equivalência entre uma idéia e outra — em detrimento das relações hierárquicas que a subordinação estabelece. Tudo isso resulta num texto que, através de sua simplicidade, compõe uma extensa superfície, um plano de idéias, memórias, conhecimentos que somam entre si.
Para Tostão, as palavras não são a bola com a qual se joga. Seu trabalho move-se por um desejo anterior, mais fundamental: o de estabelecer para o leitor um campo de jogo, um espaço discursivo no qual o futebol possa ser pensado em seus valores mais fundamentais. É este campo — de linguagem — que não está dado, mas que não cessa de ser jogado a cada partida de futebol. Repetindo a maestria com que conduzia a seleção brasileira, Tostão “dá o campo” para o leitor fazer o seu gol. Nesse sentido, todo bom escritor é superficial: inventa uma superfície — generosa, nua — apta à participação do leitor.
LUIZ GUILHERME BARBOSA

Sêneca, Vinicius e o mundo

Por José Castello 
          Converso com uma querida amiga, Babi Borghese, a respeito da fragmentação que caracteriza e oprime o pensamento em nossos dias. Lembra-me Babi que talvez não pudesse ser de outra maneira, já que vivemos em um mundo "wireless", isto é, sem fios. No entanto, avançando um pouco mais, recordamos dos fios secretos que sustentam essa rede que, na aparência, é pura dispersão. E onde mais estariam esse fios ocultos senão na arte?
          Volta e meia, retorno às "Cartas a Lucílio", de Sêneca. Viajando através delas, encontro a história de Lúcio Pisão, o chefe de polícia da Roma Antiga que, depois de ser nomeado para o cargo, nunca mais deixou de embriagar-se. Não, não farei aqui uma apologia do alcoolismo, mas dos vínculos secretos que sustentam coisas aparentemente dispersas. Pisão passava a maior parte das noites em festins. Escreve Sêneca: "No entanto, cumpriu sempre com a maior diligência o seu dever de manter a cidade em ordem". Entusiasmado, Augusto nomeou-o governador da Trácia. Prossegue o filósofo romano: " A experiência de Tibério com este Pisão dado à bebida foi mesmo tão bem sucedida que, imagino eu, foi essa a causa de ele nomear para governador de Roma a Cosso _ homem severo, de bom caráter, mas de tal modo embebido em vinho que uma vez, quando saiu de um banquete para participar no Senado, se deixou dormir em plena sessão, e teve de ser levado de lá sem dar acordo de si".
          Pisão, Corso: alcoólatras? Se a palavra realmente cabe para pensar aa Roma Antiga, provavelmente sim. Mas, para além do vício, um fio oculto ("wireless") os ligava às coisas do mundo e os transformou em profissionais exemplares. Inevitável, aqui, lembrar de Vinicius de Moraes, o poeta da paixão, para quem o uísque, de tão amoroso, era "o cão engarrafado". A lenda conta que, no período em que foi cônsul em Los Angeles, o poeta teve que representar o governo brasileiro no funeral de um oficial morto na osta americana. Foi o escolhido para fazer o discurso fúnebre. À beira do túmulo, embriagado não só pelas palavras, e não fosse o socorro dos ajudantes de ordem, teria desabado sobre o caixão. Uma versão mais radical da mesma lenda conta que, de fato, despencou. A lenda vale mais que o fato real.
          Vinicius: o gosto pelo álcool _ que corta nossos fios com a realidade _ nunca o impediu de ser um grande poeta. Insisto: não faço aqui propaganda do álcool. Nunca bebi muito, mas recentemente tomei a decisão radical de parar de beber. Portanto, ninguém pode me acusar de fazer o que não faço. Falo da embriaguez porque ela é uma útil imagem para a cisão entre o sujeito e a realidade. Duas ou três taças de vinho, e pronto: os fios que nos ligam à dura realidade (pelo menos nós pensamos assim) estão rompidos. Devem se romper mesmo, eu admito. No entanto, fios invisíveis, pelo menos no caso de homens notáveis como Pisão, Corso e Vinicius, continuam a agir. Continuam a nos sustentar.
         Não sei se eu também me deixei embriagar pelo paralelo, que no fim das contas talvez não seja tão paralelo assim, não passe de uma medíocre miragem. Mas o que tento dizer? Justamente o que minha amiga Babi me ajudou a enxergar: que mesmo em um mundo despedaçado, em um mundo que se fragmenta e se dilui, alguma coisa _ a arte, a literatura _ continua a servir de liga (de fio). Nos momentos de maior dispersão, nos momentos em que você realmente se sentir perdido e despedaçado, pegue um bom romance, ou um bom poema, e leia. E verá que linhas vigorosas _ ainda que imaginárias _ o manterão, apesar de tudo, conectado ao real. Se quiser, beba _ moderadamente, como se aconselha sempre. Mas só a literatura lhe devolverá a coesão.

Sucesso de bilheteria, animação "Rio" deve ganhar sequência

Sucesso de bilheteria, a animação "Rio" deve ganhar uma sequência em breve. As informações são do site de notícias "Hollywood Repórter".

O filme, que faturou cerca de US$ 484 milhões nas bilheterias mundiais, tem continuação prevista para estrear em 28 de março de 2014 e será mais uma vez dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha.

O primeiro longa contava a história da ararinha-azul Blu pelos céus do Rio, onde conhece Jewel, a última fêmea de sua espécie, com quem percorre os pontos turísticos da cidade.

Divulgação
Cena da animação "Rio", que deve ganhar uma sequência em 2014
Cena da animação "Rio", que deve ganhar uma sequência em 2014

Em 50 anos, percentual de idosos mais que dobra no Brasil

Em 1960, 3,3 milhões tinham mais de 60 anos; em 2010, eram 20,5 milhões.
G1 mostra evolução da pirâmide etária no Brasil em 1960, 2000 e 2010.


Info pirâmides etárias (Foto: arte/G1)
Ao longo dos últimos 50 anos, a população brasileira quase triplicou: passou de 70 milhões, em 1960, para 190,7 milhões, em 2010. O crescimento do número de idosos, no entanto, foi ainda maior. Em 1960, 3,3 milhões de brasileiros tinham 60 anos ou mais e representavam 4,7% da população. Em 2000, 14,5 milhões, ou 8,5% dos brasileiros, estavam nessa faixa etária. Na última década, o salto foi grande, e em 2010 a representação passou para 10,8% da população (20,5 milhões).
A comparação feita pelo G1 se baseia nos censos demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1960, de 2000 e de 2010.
O envelhecimento da população é uma tendência tão evidente que até mesmo os critérios do IBGE mudaram. Em 1960, todas as pessoas com 70 anos ou mais eram colocadas na mesma categoria. Já nas pirâmides etárias de 2000 e 2010, as faixas etárias foram separadas a partir dos 70 de cinco em cinco anos até os 100 (no gráfico abaixo, os dados foram somados para que pudesse haver a comparação entre os três períodos).
"O Brasil ainda é um país com a maioria da população jovem, ainda temos elevado percentual de jovens no mercado de trabalho, mas temos que nos preparar para o envelhecimento da população, principalmente em relação à pressão sobre a Previdência. Entre as iniciativas válidas está a de apoiar a implementação de recursos com Previdência complementar. Precisamos pensar e criar mecanismos que tornem o sistema mais sustentável", diz Bárbara Cobo, pesquisadora de indicadores sociais do IBGE.
Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), concorda. "O país está se preparando para esse futuro, mas ainda há muito a ser feito", diz.
Recentemente, o Congresso aprovou um novo fundo complementar para o servidor público federal com o objetivo de reduzir o déficit da Previdência. O projeto ainda precisa ser sancionado pela presidente Dilma Rousseff. Há outro projeto em discussão no Congresso para mudar o fator previdenciário, instrumento que visa reduzir o valor do benefício de quem se aposenta antes dos 65 anos, no caso de homens, ou 60, no caso das mulheres. Esse projeto pode aumentar os gastos do governo e, por conta disso, uma proposta que extinguiu o fator foi vetada no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo Bárbara, a maioria da população idosa do país está concentrada próxima a áreas urbanas. "São regiões com maior disponibilidade de serviços médicos qualificados e também uma rede social com atividades de lazer, culturais e religiosas que permitem maior envolvimento dessa faixa etária na sociedade", diz.
Um dos indicadores da mudança na pirâmide etária é a queda da taxa de fecundidade, publicada na última sexta-feira (27), entre outros dados do Censo Demográfico 2010. A queda tem feito com que o gráfico que separa os habitantes por idade fique cada vez menos triangular. Censo após censo, ele fica mais volumoso na parte central, que representa a população adulta, e começa a diminuir na base, onde ficam os mais novos.
O envelhecimento da população é uma tendência e grande parte dos países desenvolvidos já chegou nessa etapa"
Bárbara Cobo, pesquisadora do IBGE
"O envelhecimento da população é uma tendência e grande parte dos países desenvolvidos já chegou nessa etapa, decorrentes do maior desenvolvimento social e do aumento da expectativa de vida. Isso é fruto do avanço da medicina, de melhorias nas condições de saneamento nas cidades, da diminuição da taxa de fecundidade, dentre outros fatores", diz Bárbara Cobo, do IBGE.
Em 2010, cada brasileira tinha em média 1,9 filho. Foi a primeira vez que o número ficou abaixo do chamado nível de reposição – 2,1 por mulher –, que garante a reposição das gerações. Em outras palavras, a manutenção dessa tendência deve provocar a redução da população brasileira no futuro.
O número caiu 20,1% ao longo da última década. Em 2000, cada mulher tinha em média 2,38 filhos. Há 50 anos, a taxa de fecundidade era de 6,3 filhos por mulher - mais que o triplo do que é hoje.
"Nos próximos 30, 40 anos, essa tendência de envelhecimento da população brasileira é praticamente irreversível, a menos que a fecundidade volte a aumentar e a aumentar muito", acredita a pesquisadora Ana Amélia Camarano, do Ipea. "Isso ocorre porque a taxa de fecundidade caiu muito desde os anos 90 e a taxa de mortalidade nas idades avançadas também diminuiu", explica.
Isso ocorre porque a taxa de fecundidade caiu muito desde os anos 90 e a taxa de mortalidade nas idades avançadas também diminuiu"
Ana Amélia Camarano, do Ipea
"Alguns países com aumento da população idosa começaram a criar políticas públicas de incentivo para as mulheres terem mais filhos. O ideal, para repor a população do país, seria que cada mulher tivesse dois filhos", aponta Bárbara.
Dados
Apesar do crescimento absoluto de mais de 20 milhões de pessoas entre 2000 e 2010, a quantidade de crianças diminuiu. Em 2000, 32,9 milhões de brasileiros tinham menos de 10 anos; em 2010, o número caiu para 28,7 milhões.

Dentre as faixas etárias separadas pelo IBGE, a mais povoada em 2010 era a que fica entre os 20 e os 24 anos – 17,2 milhões (9%) de brasileiros têm essas idades. Em 2000, a maior concentração era na faixa etária imediatamente abaixo – 17,9 milhões (10,6%) tinham entre 15 e 19 anos de idade. Há 50 anos, as crianças pequenas eram a parcela mais significativa da população – 11,1 milhões (15,8%) tinham entre 0 e 4 anos.
Mães mais velhas
Com os novos padrões, mudam também os hábitos. Os dados divulgados na sexta-feira mostram que a tendência é que as mulheres tenham filhos cada vez mais tarde. Em dez anos, aumentou o percentual de mulheres que se tornaram mães depois dos 30 anos. Em 2000, elas representavam 27,6% do total; em 2010, já eram 31,3%.

Enquanto isso, houve queda entre as mais novas. Os grupos de 15 a 19 anos e de 20 a 24 anos de idade, que tinham respectivamente 18,8% e 29,3% das mães em 2000, passaram a concentrar 17,7% e 27,0% do total em 2010.

Para Bárbara Cobo, o fato de as mulheres deixarem para ter filhos mais velhas não tem relação direta com o aumento da população idosa. "Não acho que a mulher pensa que, já que as pessoas estão vivendo mais, vou deixar para ter um filho mais tarde. A tendência decorre do avanço da mulher no mercado de trabalho e da implementação dos métodos anticoncepcionais desde a década de 70, que muitas vezes gera uma mudança de comportamento da mulher, que se preocupa em consolidar uma carreira estável primeiro."

François Hollande declara vitória em eleição presidencial na França

Logo após o fim da votação, Nicolas Sarkozy reconheceu derrota.
Pesquisas de quatro institutos apontam vitória do socialista Hollande.




O candidato socialista François Hollande declarou vitória nas eleições presidenciais deste domingo (6) na França, depois de Nicolas Sarkozy, atual presidente francês, ter reconhecido a derrota no pleito. "Neste 6 de maio, os franceses escolheram a mudança para me levar à presidência", disse Hollande durante discurso para apoiadores.

"Prometo ser o presidente de todos. Há apenas uma França, uma nação, unida para o mesmo destino. Todos na França terão os mesmos direitos e as mesmas obrigações”, afirmou Hollande, que disse sentir profunda gratidão por todos que votaram nele. A chanceler alemã, Angela Merkel, já ligou para Hollande para parabenizá-lo pela vitória.

"Hoje, responsável pelo futuro do nosso país, estou ciente de que toda a Europa nos observa. Na hora em que o resultado foi anunciado, tive a certeza que em diversos países europeus houve um sentimento de alívio e de esperança, de que, por fim, a austeridade não deve ser mais uma fatalidade", disse Hollande, que acrescentou que o país deve enfrentar muitos desafios difíceis.
“Todas as minhas escolhas, todas as minhas decisões serão baseadas em dois critérios. É justo? E é realmente bom para os jovens da França?”, completou. "Envio uma saudação republicana a Nicolas Sarkozy, que dirigiu a França durante cinco anos e que, por isto, merece nosso respeito".
Hollande comemora, ao lado da mulher Valerie Trierweiler, sua vitória nas eleições presidenciais francesas (Foto: Regis Duvignau/Reuters)Hollande comemora vitória ao lado da mulher Valerie Trierweiler (Foto: Regis Duvignau/Reuters)
Discurso de derrota
Sarkozy reconheceu sua derrota nas eleições em discurso para seus apoiadores logo depois do fim da votação, às 15h (horário de Brasília). “François Hollande é o presidente da França e deve ser respeitado", disse Sarkozy, que afirmou já ter ligado para o adversário para lhe desejar "boa sorte".

Sarkozy, alvo do descontentamento pelo crescimento do desemprego durante o mandato de cinco anos, afirmou ter toda a culpa pela derrota ao dizer que é "um homem que aceita a responsabilidade". "Assumo total responsabilidade por essa derrota. Eu dei tudo de mim, me comprometi totalmente. Mas não consegui convencer a maioria dos franceses”.
Nicolas Sarkozy reconheceu sua derrota nas eleições na França em discurso para seus apoiadores (Foto: Philippe Wojazer/Reuters)Sarkozy reconheceu derrota nas eleições em discurso para apoiadores (Foto: Philippe Wojazer/Reuters)
Novas projeções do Ministério do Interior foram divulgadas pouco antes das 18h (horário de Brasília), com base em 72,35% dos votos apurados. Hollande tem 51,07% e Sarkozy, 48,93%. Segundo estimativas dos institutos CSA, TNS Sofres e Ipsos, Hollande deve ser o novo presidente da França ao alcançar 52% dos votos, contra 48% de seu adversário. As estimativas do instituto Harris Interactive oscilam entre 52,7 e 53,3% a favor de Hollande.
Multidões encheram a Place de la Bastille, a praça emblemática da Revolução Francesa, em Paris, para celebrar a vitória de Hollande. Apoiadores levaram bandeiras vermelhas e rosas, o símbolo do Partido Socialista. Hollande vai colocar fim a 17 anos de ausência da esquerda francesa na presidência do país. O socialista François Mitterrand, eleito em 1981, conseguiu se reeleger em 1988 e ocupou o cargo até maio de 1995.
Ex-mulher de Hollande e mãe de seus quatro filhos, Ségolène Royal disse que tem um "sentimento de profunda alegria ao ver milhões de franceses renovarem o pleito para a esquerda”. “Os franceses podem ficar confiantes”, disse ela em entrevista à TV. “Vamos precisar de todos para ajudar o país a se recuperar”. Royal enfrentou Sarkozy nas eleições de 2007.
Ao votar na cidade de Tulle, na região central da França, onde foi prefeito por sete anos, Hollande cumprimentou os eleitores com apertos de mão e beijos. Com 46 milhões de pessoas aptas a votar, as zonas eleitorais abriram às 8h locais (3h de Brasília) e fecharam na maioria dos lugares às 18h (13h). Nas cidades grandes, funcionariam por mais duas horas.

Números do Ministério do Interior mostraram que 72% dos eleitores aptos tinham votado até as 17h locais (12h de Brasília) apesar do tempo ruim em boa parte do país, superando a participação de 70,6% até a mesma hora no primeiro turno, em 22 de abril.

Campanha

Hollande se lançou na disputa pela presidência em meio a ironias, sendo considerado "brando" demais e provinciano demais. Mas o candidato socialista traçou tenazmente seu caminho até se tornar o favorito à eleição presidencial.
No início, ninguém apostava nele. Não era nem o ex-diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, um brilhante economista, nem sua ex-companheira Ségolène Royal, de relação emotiva com os franceses. Hollande foi primeiro-secretário do Partido Socialista (PS) durante 11 anos. Deputado do departamento rural de Corrèze, não parecia ter o carisma exigido na França em uma eleição presidencial.
Apoiantes do Partido Socialista comemoram a vitória de Hollande na Place de la Bastille, em Paris (Foto: Francois Guillot/AFP)Apoiadores comemoram a vitória de Hollande na Place de la Bastille, em Paris (Foto: Francois Guillot/AFP)
Até o dia 14 de maio de 2011, nada permitia prever que chegaria ao segundo turno da eleição presidencial. Strauss-Kahn era o favorito das pesquisas e da imprensa para ser o candidato socialista. Hollande havia lançado semanas antes sua campanha, mas os observadores estavam convencidos de que sua corrida em direção às eleições seria interrompida no caminho, sem chegar muito longe.

Os problemas judiciais colocaram um ponto final na carreira política de Strauss-Kahn e deixaram a via livre para Hollande. As primeiras pesquisas deram razão a ele, ao situá-lo na liderança dos candidatos de esquerda preferidos dos franceses. Mais ainda, previam que poderia vencer o presidente Sarkozy.
História
Aos 57 anos, Hollande nasceu em uma família de Ruan, no noroeste da França, filho de um médico e de uma assistente social. Estudou na ENA, prestigiada escola de administração e berço da elite política francesa. Lá, conheceu aquela que foi sua companheira por 25 anos e mãe de seus quatro filhos, Ségolène Royal.

Terminados os estudos, trabalhou no Tribunal de Contas. Fascinado pela figura política do presidente François Mitterrand, eleito em 1981, começou a colaborar com ele escrevendo "notas". Aos 26 anos, assumiu o desafio de se candidatar às eleições legislativas no reduto eleitoral do então futuro presidente Jacques Chirac, que em um ato público perguntou: "Quem é você?". "Sou aquele que você compara com o cachorro labrador de Mitterrand", respondeu o socialista.

O ex-presidente Chirac, que pertence ao mesmo partido de Sarkozy, tem, no entanto, afeto pelo opositor, que persistiu e terminou conquistando seu bastião de Corrèze. Chirac chegou, inclusive, a dizer que "votará em Hollande", antes de ressaltar que sua frase era "humor correziano".
Os fracassos nas eleições presidenciais de Lionel Jospin em 1995 e em 2002, e de Ségolène Royal, em 2007, o levaram a decidir que cabia a ele se candidatar. Aconselhado por sua nova companheira, a jornalista política Valérie Trierwieler, perdeu mais de 10 quilos, mudou de aspecto e abandonou suas piadas inoportunas, que lhe deram a reputação de ter um humor arrasador.

Chegada antecipada da primavera aumenta número de morcegos fêmea

Mamíferos voadores geram duas vezes mais fêmeas no período.
Capacidade de se reproduzir no primeiro ano de vida altera proporção.


Um estudo realizado com morcegos por pesquisadores da Universidade de Calgary, no Canadá, sugere que os mamíferos voadores geram duas vezes mais bebês fêmeas do que machos quando a primavera começa mais cedo. A pesquisa foi publicada nessa semana na revista científica “PLos One”.
Para chegar a essa conclusão, Barclay analisou por bastante tempo a variação na proporção de sexos da prole de morcegos Eptesicus fuscus, espécie comum na América do Norte e que come insetos.
A maior proporção de fêmeas ocorre porque, além de nascerem mais cedo, elas conseguem se reproduzir com apenas um ano de idade, o que não acontece com os machos, afirma Robert Barclays, autor do estudo e membro do Departamento de Ciências Biológicas de Calgary.
“A seleção natural favoreceu mecanismos internos que resultam no desequilíbrio entre os sexos porque as mães que geram uma filha deixam mais descendentes na próxima geração do que mães que geram um filho”, diz Barclays.
Isto sugere que não só a proporção de sexos varia sazonalmente e entre os anos, mas também varia geograficamente devido a diferenças do tempo que dura a estação.

Professora brasileira leva olimpíada de astronomia para o Timor Leste



Tunísia Schuler vai aplicar a prova a 200 alunos de uma escola em Dili.
Proposta é incentivar o estudo de ciências de forma lúdica.

Tunísia e alunos da Escola de Ensino Básico Dr. Sérgio Vieira de Melo, em Dili, no Timor Leste (Foto: Arquivo pessoal)Tunísia e alunos da Escola Dr. Sérgio Vieira de Melo, em Dili, no Timor Leste (Foto: Arquivo pessoal)
No próximo dia 11, cerca de 200 crianças da Escola de Ensino Básico Dr. Sérgio Vieira de Melo, que fica em Dili, no Timor Leste, que fica em uma ilha no sudeste da Ásia e tem o português como um dos seus idiomas, vão fazer a prova da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) no mesmo dia, que os milhares de estudantes brasileiros inscritos na 15ª edição da competição estudantil de conhecimento. O evento chega pela primeira vez ao Timor pelas mãos da engenheira e professora Tunísia Schuler, uma das 37 pessoas selecionadas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie para dar aulas durante um ano na Universidade Nacional do Timor Leste (UNTL).
Tunísia embarcou para o país asiático no início de 2012 e levou consigo a missão de introduzir a olimpíada nas escolas timorenses. "Através da OBA, as crianças são estimuladas a buscar o conhecimento de forma lúdica. A OBA desperta o interesse dos alunos pelo saber científico e pela tecnologia, além de incentivar jovens cientistas em potencial, dando a eles oportunidade de participação em outros eventos científicos", afirmou a professora, em entrevista por e-mail ao G1.
Tunísia Schuler, professora brasileira que levou a olimpíada de astronomia ao Timor Leste (Foto: Arquivo pessoal)Tunísia se mudou para o Timor Leste para dar aulas
(Foto: Arquivo pessoal)
O projeto-piloto, feito em parceria com a OBA, teve sua primeira fase na semana passada, com o treinamento de 10 professores da escola, que entre os dias 25 e 27 de abril participaram de palestras e oficinas de três temas. "As professoras brasileiras da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], Graziela Lunardi e Márcia Brandão Aguilar, estão responsáveis pelos temas de astronomia e energia, respectivamente, e eu pela astronáutica."
Desde a quarta-feira (2) até esta sexta-feira (4), os professores fizeram oficinas com os alunos participantes para treinar e poder reproduzir a experiência nos próximos anos. No sábado (5), os alunos assistiram a um filme e, na próxima quarta-feira (9), participarão de uma mostra de foguetes de papel. No dia 11, às 13h (horário de Dili), os estudantes farão as provas da olimpíada.
Recursos
Segundo Tunísia, várias entidades ajudaram a levantar os recursos para a realização do evento. "A OBA está doando 275 dólares (cerca de R$ 520) para todo o material escolar que será utilizado durante as oficinas. E a embaixada brasileira está nos fornecendo os equipamentos de multimídia (telão, datashow, caixa de som e gerador). Os professores timorenses receberão um material didático cedido pela OBA, pela empresa Acrux e pela Capes", disse.

Fiquei admirada ao ver que 200 alunos do ensino pré-secundário (7º a 9º anos) se inscreveram"
Tunísia Schuler, professora que levou
a olimpíada de astronomia para o Timor Leste
Além dos poucos recursos financeiros, Tunísia também se supreendeu pela facilidade em mobilizar crianças e adultos timorenses interessados na olimpíada.
"Fiquei admirada ao ver que 200 alunos do ensino pré-secundário (7º a 9º anos) se inscreveram, o que mostra bastante interesse na participação neste projeto. Os professores também ficaram empolgados, como podemos verificar pela adesão de todos eles que trabalham na área de física e geografia."
Desde que chegou ao país, a professora afirmou que tem visto um investimento do Timor Leste na educação, tanto no aumento do salário dos professores quando no incentivo ao aprendizado do português. Ela negou, porém, que o governo tenha o objetivo de eliminar o tétum - os dois idiomas são considerados oficiais, mas, segundo ela, o censo timorense mostrou que 90% da população fala tétum e apenas 25% domina o português, "o que é um grande avanço, já que, há dez anos, apenas 5% falavam a língua portuguesa". Segundo ela, o governo investe no português para diferenciar o país de seus vizinhos, a Indonésia e a Austrália, onde predomina o indonésio e o inglês.
Tunísia espera permanecer no Timor por pelo menos dois anos e, então, voltar ao Brasil para fazer um doutorado. Antes disso, porém, ela já iniciou um plano para garantir a longevidade da olimpíada de astronomia por lá. "Neste primeiro projeto, meus estudantes do primeiro ano de física [na universidade do Timor] participarão dos cursos como ouvintes e darão apoio aos professores timorenses, orientando as crianças durante as oficinas. Pretendo preparar um professor da UNTL e alguns estudantes que possam divulgar a OBA entre outras escolas e dar continuidade neste trabalho."